domingo, 9 de julho de 2023

Em Grañon


Igreja de Grañon 

Quando entrei na igreja, ele me ajudou a abrir a porta, que estava meio emperrada. Achei que fosse o zelador, mas depois que meus olhos se acostumaram à penumbra, percebi que ele estava ali meditando ou fazendo suas orações, compenetrado, ora de cabeça baixa, ora olhando fixamente para o altar, ora de olhos fechados. 

Fiz uma oração, tirei algumas fotos do altar e me dirigia para a saída, quando ele se levantou devagar, caminhou na minha direção e perguntou:

– Você está indo para Santiago de Compostela?

– Sim.

– Eu sou de uma cidade a pouco mais de 100km daqui. Vim apenas para rezar e pedir forças a Deus. Estou aqui há dois dias e devo ficar até Deus me dar forças para superar a minha aflição.

Ao dizer isso, baixou os olhos. Eu não acreditaria, se não tivesse percebido tanta angústia nos gestos dele. Passar dois dias dentro de uma igreja antiga e escura deve ser por uma razão muito grave. Ele continuou:

– Meu nome é Ignacio. Me desculpa por te interromper, mas eu só quero te pedir uma coisa, se não se importar...

– Pois não, se estiver ao meu alcance, será uma satisfação.

– Só quero que reze por mim na sua caminhada, e quando chegar em Santiago, peça ao Santo que me dê consolo e forças para prosseguir. 

Eu tentei animá-lo:

– Pode ter certeza de que a partir de hoje, em todas as minhas orações até Santiago, vou pedir por você.

Visivelmente abatido e emocionado, ele pegou minha mão, segurando forte com as duas mãos e, insinuando um gesto de reverência, curvando-se, disse:

– Muito obrigado. Vá com Deus, peregrino. Que Santiago te proteja e te acompanhe no caminho e ouça as tuas orações, por nós dois.

Tentando esboçar um sorriso acanhado, para disfarçar a tristeza, ele buscou se descontrair:

– Sei que no Brasil as pessoas se abraçam muito. Posso te dar um abraço?

Sem responder, eu o abracei, apertando-lhe os ombros, e disse:

– Deus nos abençoe!

Quando nos soltamos,  vi lágrimas nos seus olhos. Ele se afastou repetindo o gesto de reverência, curvando-se e se afastando mais a cada gesto, enquanto colocava a mão no peito e repetia: 

– Obrigado, vá com Deus! Obrigado, vá com Deus!

Ao sair da igreja, reparei que próximo à porta havia um único carro estacionado, uma Mercedes Benz branca de alto padrão de luxo, com marcas de respingo de orvalho e poeira, indicando que estava parada ali, exposta ao tempo, há alguns dias. Nesse momento, não pude evitar a emoção, imaginando o quanto deveria estar aflito o coração daquele rapaz, independentemente de ter um padrão de vida alto, próspero, e de dispor de bens materiais tão valiosos. 

Uma das grandes lições que o Caminho nos ensina e que tem valor inestimável para a vida toda é a consciência de que tudo o que precisamos para viver pode ser levado nas costas, numa mochila pequena. E nada melhor para superar os sofrimentos, as aflições, as amarguras e mágoas que a vida nos impõe, do que seguir em frente e deixar tudo para trás, ainda que tenhamos de enfrentar dores terríveis, cansaço e desconforto enormes, fome e sede. Assim, sempre resta a esperança de que em nossa caminhada possamos levar para longe não só as nossas angústias, mas também as de outros que igualmente sofrem. 

No final, cada etapa vencida terá sido uma alegria vivida e uma gratificação recebida. Creio que esse conjunto de coisas, misturando metáforas com realidades cotidianas, deve ser a receita para a tal felicidade, de que tanto falam, que eu nem sei se existe. Mas é correndo atrás dela e enfrentando desafios que a vida faz valer a pena.

(Trecho do livro "Todos os Meus Passos no Caminho de Santiago, de Marcio Almeida).
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Marcio Almeida é Engenheiro Mecânico e Engenheiro Industrial, Administrador de Empresas, MBA em Gestão Governamental e Ciência Política, Especialista em Informática, Especialista em Direito Administrativo Disciplinar, ex Diretor de Auditoria Legislativa e ex Presidente de Processos Disciplinares na Administração Federal Brasileira, Diplomado da Escola Superior de Guerra, M∴M∴, Escritor, Músico Amador, Meio-Maratonista, pesquisador autodidata em Nutrologia e Nutrição Esportiva, História e Sociologia.

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