Na Catedral de Burgos
Numa pequena lanchonete, pedi um sanduíche de queijo e presunto, o preferido em todo o interior da Espanha, chamado por eles de "Bocadillo".
Enquanto eu comia no balcão, um casal de alemães, com idade entre 70 e 80 anos, entrou na lanchonete aflito, misturando Alemão e Inglês, perguntavam se não tinham deixado ali um livro, uma valiosa relíquia de família. O funcionário ficou boiando, pois não entendia nada de Inglês, muito menos Alemão. Entrei na conversa e pedi que eles me contassem, em Inglês, sobre quando tinham estado ali e como era o livro. Traduzi para o rapaz da lanchonete mas, infelizmente, ele não o tinha visto. Os dois velhinhos saíram visivelmente consternados.
Na Agência Bancária
Mas o episódio mais hilário que aconteceu comigo em Burgos, foi no dia anterior. Eu havia caminhado 42 km até chegar ali, saindo do povoado de Belorado, por uma estrada poeirenta e sob um sol escaldante. Sem contar a subida e a travessia da Sierra De La Demanda, cuja trilha é coberta de pedregulhos que mais pareciam brasas cozinhando a sola dos pés dentro da bota.
Eu havia feito esse pesado trecho praticamente sem pausas e, na entrada de Burgos, decidi que me presentearia com uma noite minimamente confortável. Afinal, eu merecia, depois de vários pernoites improvisados e mal acomodado!
Antes de procurar um bom hotel, passei numa agência bancária para sacar dinheiro e, assim, evitar surpresas frustrantes, caso o hotel não aceitasse cartão de crédito.
Ao entrar no banco, aquelas instalações decoradas com alto luxo e o piso brilhante me deixaram constrangido, pois eu estava mais sujo e poeirento que um porco recém saído da lama. Cada passo que eu dava fazia subir poeira das botas e cair poeira da roupa e da mochila.
Pela cor lamacenta das mãos eu imaginava o estado da minha cara. Envergonhado e meio arrependido de ter entrado, já me preparando para sair de fininho pela mesma porta, parei no meio do saguão e conferi se algum cliente ou alguma daquelas recepcionistas de elegância impecável estavam me olhando com ar de rejeição, quando o gerente se levantou da sua mesa lá no fundo e caminhou na minha direção.
Inicialmente, pensei que ele fosse me dar um esculacho! Mas, para meu alívio, percebi que ele vinha sorrindo e logo me estendeu a mão, que eu aceitei meio encabulado, me desculpando e justificando a sujeira e o meu estado deplorável.
Sem sequer olhar pra minha sujeira, ele foi me guiando para a sua mesa, falando descontraidamente:
- "A cidade de Burgos nasceu de um "Hospital de Peregrinos" que existia aqui neste lugar há quase mil anos atrás. Tudo começou por causa dos Peregrinos, a cidade cresceu em função deles e, até hoje, somos uma cidade conhecida devido aos Peregrinos e à nossa Catedral famosa. Por isso, a nossa tradição e a nossa cultura preserva grande respeito por cada Peregrino que passa por aqui a caminho de Santiago de Compostela. É uma honra poder lhe ser útil.
No meio da conversa, me ofereceu água, café e suco, buscou meu dinheiro no caixa sem que tivesse que me levantar da cadeira e me perguntou várias curiosidades sobre o Brasil e, no final, me deu algumas dicas de hotel perto dali.
Perdido
À noite, depois de uma merecida ducha na banheira e uma boa macarronada no hotel, a despeito do cansaço extenuante, resolvi ir a uma Internet ligar pra minhas filhas no Brasil e enviar fotos por e-mail. Ao sair, reparei que na praça em frente ao Hotel havia uma grande estátua de um cavaleiro, que deduzi ser a estátua de El Cid, fundador da cidade de Burgos, que era mencionada no meu livro Guia do Caminho.
Já era mais de onze horas da noite quando deixei a lojinha de internet. Na primeira esquina tive dúvidas quanto à direção a seguir e ao pedir informações, lembrei-me que eu não tinha memorizado o nome do Hotel e constatei também que a chave não tinha nome nem endereço. Mas tratei logo de facilitar, esclarecendo que era um hotel localizado na mesma praça onde ficava a "estátua de El Cid" e, assim, o rapaz me explicou como chegar lá.
Só que eu andei, andei e não reconhecia nada. Pedi mais informações a outras pessoas, atravessei uma ponte que eu não tinha visto e quanto mais eu seguia adiante, mais a cidade parecia diferente da região de onde eu saíra. Mas informações das pessoas sempre me indicavam a mesma direção.
Muito tempo depois e dezenas de quadras adiante, me vi na frente da verdadeira estátua de El Cid! Era uma obra monumental, totalmente iluminada por vários holofotes e três vezes maior que a outra que eu havia visto na frente do meu hotel. Desesperado, estropiado e completamente exaurido, descobri que eu estava perdido!
Rapidamente procurei alguém na praça pra perguntar onde ficava "a outra" estátua de cavaleiro numa praça, ao que ele me respondeu:
- Qual delas? Há várias na cidade!

Nenhum comentário:
Postar um comentário