quarta-feira, 15 de julho de 2015

Memórias do Caminho de Santiago [Portomarín]

[...] Essas histórias contadas são conhecidas no interior de Minas Gerais como “causos”. Geralmente se trata de algo muito fantástico, alguma aventura extraordinária e fantasiosa. Sempre foi assim. O meu primo Geraldo da Raquela era um mestre dos causos. Ele contava que antigamente, lá na fazenda Barreiro tinha um parente nosso chamado Cazeca, que costumava viajar pelo mundo. De vez em quando, sumia por muito tempo, depois reaparecia, cheio de histórias. Numa dessas viagens ele contou que esteve num lugar tão evoluído que, quando morria alguém, já não se usava mais essa coisa de carregar o caixão. Que lá, essa trabalheira de subir morro e descer morro carregando caixão com defunto pesado, era coisa do passado.

Eles simplesmente passavam um "preparado" nas juntas do defunto e quando chegava a hora do enterro, ele mesmo se levantava e ia caminhando para o cemitério. Ia o morto pela estrada afora, andando na frente e as pessoas atrás - a viúva e os parentes chorando e os outros amigos rezando. Quando chagava na beira da cova, o morto parava, acenava dando “tchau” pra todo mundo, fazia o sinal da cruz e se deitava no fundo, na posição certa. Daí, era só jogar terra em cima e pronto.

Eu imagino que ele deve ter inventado essa história durante algum enterro lá na própria fazenda Barreiro, motivado pelo cansaço ao carregar o morto, pois o único cemitério da região fica no povoado de Pimentas, a uns oito quilômetros de distância, com muita subida de serra.

...

São 09:50hs e eu devo ter andado quase 19Km desde Portomarín. O tempo está bom para andar, o sol ainda não saiu e está meio nublado, sem ameaça de chuva. Venho observando paisagens muito bonitas, que lembram um pouco aquelas paisagens de quando se atravessa o Rio Grande, pela estrada que vai de Araxá para São Paulo, na região próxima à represa de Furnas. O ecossistema e a topografia daqui são bastante parecidos, com muitas reservas de florestas e de bosques nas áreas ciliares de cursos d’água, separadas por colinas verdes.


[Trecho do livro "Um milhão de Passos" (Título provisório), de Marcio Almeida.

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